A QUESTÃO DA VACINAÇÃO CONTRA O SARS-CoV-2

A QUESTÃO DA VACINAÇÃO CONTRA O SARS-CoV-2

Pandemia. A estranha palavra que passou a fazer parte do nosso dia-a-dia há dois anos e que nem tão cedo nos abandonará. Desde março de 2020, com o início do primeiro confinamento a nível mundial, nunca mais vivemos da mesma forma. Um ano depois respirámos de alívio com a aprovação de 12 vacinas contra a COVID-19. Ou então não. A questão da aceitação da vacinação é ainda tema de conversa à mesa de jantar. Temos quem aceite, de facto, que o melhor que nos aconteceu, a fim de superarmos esta pandemia, foi a vacina. Por outro lado, há quem pense, por várias razões, que a administração da vacina não é de todo necessária. E tu? O que pensas sobre este assunto?

A nossa aluna, Maria Rita Neves, do 9ºano, decidiu mostrar-nos como se sente face a este assunto.

Não, não sou mais uma anti-vacina. Na verdade, até acredito, em parte, nos benefícios da mesma. Sei que não nos impede de contrair ou transmitir o vírus, mas que nos impede de manifestar os sintomas mais graves, digamos assim. Sei que nos impede de morrer e, por isso, estou grata por terem conseguido ajudar, de alguma forma, o término deste vírus, desta pandemia que todos vivemos no momento.
Pandemia esta que me tem cortado as asas para voar, tem me tirado a liberdade para poder Viver. Viver sim com o V maiúsculo porque o que tenho feito não foi Viver, foi sobreviver, tolerar e engolir. Mas hoje dou um ponto final ao meu “sobreviver”, ao meu tolerar e engolir. Quando digo isto não espero que mude alguma coisa a nível nacional, porque sei que não vai, mas sim a nível pessoal, e isso já é muito importante.
Gostava que cada pessoa que estiver a ler isto pensasse e raciocinasse comigo: todos conhecemos o 25 de abril de 1974, quando parte do nosso povo se juntou e lutou pela nossa liberdade. Todos sabemos, também, que as principais causas desta revolução foram a repressão de liberdades civis, da liberdade política e da liberdade de expressão. Se atentarmos nas medidas que nos têm sido impostas, principalmente aquelas que segregam os não vacinados, impedindo-os de ter uma vida igual ou, talvez, a nível pessoal, chegar a ser melhor do que a vida dos vacinados, vai contra a liberdade e dignidade social, direitos estes que, neste momento, enquanto escrevo, estão a ser protegidos no Artigo 13 da Constituição da República Portuguesa.
Então, se nós portugueses temos na nossa constituição a liberdade e dignidade social porque é que estamos a fazer isto? Porque é que nos estamos a separar? Por escolhas? Porque sim, ser vacinado ou não vacinado é uma escolha e deve ser respeitada por todos. Porque é que nós portugueses, que tanto sabemos sobre discriminação e perseguição dos tempos antigos, estamos a fazer isto? Porque é que estamos a discriminar o nosso próprio povo? Porque é que nos estamos a perseguir sobre uma escolha que cada, um na sua livre consciência, vai tomar? Por favor, vamos todos pensar e respeitar-nos uns aos outros, porque no final de contas, não é um certificado que nos vai fazer mais ou menos humanos, mas sim segregar. Isso sim, vai nos fazer menos humanos.
Obrigada.

Mas o que será que pensa uma pessoa do outro lado? A Viviana Darie, aluna do 12ºano, diz-nos o que pensa.

Num contexto de pandemia, a palavra “vacina” tem uma notável magnitude. Mas será só de agora? Não, já o teve ao longo de todo o século XX, permitindo, por exemplo, a erradicação de doenças mortíferas como a varíola, responsável pela pela morte de cerca de 300 milhões de pessoas, num período de apenas 80 anos (1901 a 1980). Porém, conforme as doenças mais graves vão deixando de ser tão comuns e perigosas, o ser humano tende a menosprezar o mérito das vacinas e fica, também, menos recetivel à sua toma. 

Muitos são os que, ainda,  se questionam sobre a eficácia da vacina contra o SARS-CoV-2, bem como o seu desenvolvimento em “tempo recorde”, as consequências da sua toma, a comprovação dos estudos realizados sobre as mesmas, assim como o interesse econômico, entre outras vertentes. 

Desta forma, é importante aumentar a divulgação do saber científico de forma a fortalecer um consenso social, a fim de respeitar e permitir uma vida digna em sociedade. 

Para perceber a importância da harmonia social perante a toma da vacina, é necessário primeiro recordar o que significa viver em sociedade. Viver em sociedade é uma necessidade humana. É possível observar, ao longo da história, que o ser humano aprimorou as interações sociais com os outros e se viu num benefício em viver em sociedade, uma vez que demandava dos outros para conseguir alimento e abrigo, tanto físico como emocional. No entanto, definir uma sociedade estará sempre condicionado pela subjetividade dos que a constituem, mas é inegável a importância da solidariedade e do respeito mútuo pela nossa liberdade e a dos outros, o que vai de encontro ao expresso por Duguit : “O homem vive em sociedade e só pode assim viver; a sociedade mantém-se apenas pela solidariedade que une seus indivíduos. Assim uma regra de conduta impõe-se ao homem social pelas próprias contingências contextuais, e esta regra pode formular-se do seguinte modo: Não praticar nada que possa atentar contra a solidariedade social sob qualquer das suas formas e, a par com isso, realizar toda atividade propícia a desenvolvê-la organicamente. O direito objetivo resume-se nesta fórmula, e a lei positiva, para ser legítima, deve ser a expressão e o desenvolvimento deste princípio. (…) A regra de direito é social pelo seu fundamento, no sentido de que só existe porque os homens vivem em sociedade”. Assim, é possível, através desta concepção, fazer face à controvérsia gerada perante a vacina contra o SARS-CoV-2.

A vacinação não implica, necessariamente, o fim da nossa liberdade. Permite sim, a liberdade comum, que passa pela ida a um restaurante, realização de viagens, convívios com os devidos cuidados, e o mais importante a segurança ao nível da saúde, isto é, mesmo num caso de contágio, a manifestação da doença é provável de ser mais ligeira em pessoas vacinadas. Tal é evidenciado pelas recentes notícias: “As pessoas não vacinadas contra a Covid-19 apresentam uma taxa de mortalidade quatro vezes superior aos vacinados, alertou hoje o pneumologista Filipe Froes, salientando a importância da vacinação mesmo perante a variante Ómicron.”

Indo de encontro ao expresso por Duguit e pela doutrina utilitarista, a vacinação permite uma diminuição dos recursos hospitalares, em termos de internamentos, dissolução controlada das medidas obrigatórias como o teletrabalho e o uso de máscara em determinados espaços, redução do encerramento de estabelecimentos, bem como de eventos. Favorece e permite, ainda, o comércio, contribui vigorosamente para o alcance da imunidade de grupo e, consequentemente, para a retoma a uma realidade mais cômoda e familiar.  

Pelo exposto, a toma da vacina contra o vírus SARS-CoV-2 é uma decisão livre até onde a liberdade dos outros começa, isto é, não é uma obrigação, mas uma responsabilidade que carece de uma escolha consciente. É de se notar que mesmo perante os efeitos secundários (maioritariamente) temporários da vacina, enquanto seres constituintes de uma sociedade, é uma vantagem a administração da mesma, nesta situação de pandemia. A vacinação constitui, assim, uma arma no combate à disseminação do vírus, do mesmo modo, que constitui um teste diante do nosso compromisso social.

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