A Plataforma

A Plataforma


O filme “EL Hoyo”, ou “A plataforma”, como título traduzido para portugues, é uma criação de Galder Gaztelu-Urrutia, diretor e produtor de cinema e publicidade espanhol, que se viu bombardeado de bastantes boas criticas em relação ao seu novo filme. Filme este que estreou na plataforma da Netflix a 20 de março deste ano e foi de imediato um grande sucesso pela sua originalidade neste thriller psicológico que é de deixar a pensar por envolver uma grande crítica à sociedade.

 Descrito como nojento e perturbador por criticos e fãs, uma obra que não é para todos os estômagos, um filme bizarro, sombrio mas que vale a pena ver pela sua mensagem.

 Logo de início é avisado ao espectador que há 3 tipos de pessoas, os que estão em cima, os que estão em baixo e os que caem. E esta é uma parábola grotesca sobre a condição humana.

Mesmo acabando por se apegar excessivamente à violência gráfica, algo que pode desviar do seu real objetivo, e mesmo que o uso de sangue e diversos outros elementos sinistros sirvam para a astuta construção do suspanse, a história em si é bastante simplista. O enredo gira à volta de um homem que se voluntaria para uma experiência de forma a ganhar um diploma, e que acorda numa espécie de prisão de vários andares, 333 para ser explicíta, onde uma vez por dia passa uma mesa repleta de comida por cada um dos andares, permanecendo em cada um deles por alguns minutos de forma a dar tempo aos prisioneiros para comer.

Como os prisioneiros do topo, isto é, dos níveis mais acima, recebem mais comida, conforme a plataforma vai descendo de nível para nível, cada vez menos comida vai sobrando para os demais. E é assim que funciona este jogo sádico e bizarro que torna esta obra na singularidade que ela é.

O design de produção do filme é fantástico ao criar um ambiente macabro, frio e sombrio, dado pelo trabalho da direção fotográfica que cria um ambiente escuro e que passa a perfeita sensação de angustia e solidão. Os cenários são pequenos e simples, mas eficazes na proposta de serem claustrofóbicos e intrigantes, deixando também o espectador no escuro em relação à temporalidade da ação.

O timing do lançamento deste filme por parte da Netflix não pôde ser mais certeiro, notam-se paralelismos entre o filme e os tempos que se estavam a passar na altura, onde o verbo açambarcar fazia parte do dia a dia. Todos os dias se viam imagens referentes à pandemia de prateleiras de supermercados vazias, muitas delas causa de algum alarmismo, mas sobretudo de um egoísmo perante o próximo. Vimos o individualismo na sua pior demonstração.

Voltando ao filme, a prisão é uma clara alusão e alegoria à estratificação da sociedade por classes, onde as mais beneficiadas estão – como sempre – acima de todas as outras, no sentido literal ou figurativo. Em vez de racionarem, para que a comida chegue a todos os níveis da prisão, os prisioneiros comem de forma abrupta e acima do necessário, com medo de que no dia seguinte acordem num nível inferior onde passarão fome por os que estão acima fazerem exactamente o que eles fizeram. Um ciclo vicioso e um pensamento corrosivo; uma luta interna de cada um que revela o pior da natureza humana.

A Plataforma é um filme cujo guião nunca consegue acompanhar o seu impacto visual e físico, sendo que também deixa demasiadas pontas soltas e planos de interesse por explicar. É um filme que revela os seus pontos positivos na sua atualidade e nas analogias mas que se perde na falta de qualidade de muitos diálogos e que com tanto simbolismo acaba por “tapar a cabeça mas destapar os pés”.

Apesar disso, trata-se de um filme urgente, necessário e imediato, interessante no aspeto principal da sua abordagem e que nos faz refletir, destinando-se assim a ser falado durante muitos anos de forma meritória.

 Em suma, A Plataforma é um filme necessário aos olhos de hoje, repleto de indicações de como a sociedade poderia e deveria ser mais justa e solidária, e de como seria necessário um movimento colectivo iniciado por algo ou alguém para que chegássemos a esse resultado. Concorde-se ou não, são traços de paralelismo com os dias de hoje sobre os quais deveríamos refletir nos tempos que passam.

Recomendaria sim esta obra, porque o que seria apenas um mero filme torna-se num objeto de grande reflexão e pensamento por parte de quem assiste. É sem duvida um dos títulos mais originais que já surgiram no mundo cinematográfico.

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