Para onde vamos?

Para onde vamos?


Há cerca de 14 mil milhões de anos, tudo o que existe hoje, toda a matéria e energia, estava infinitamente comprimida num ponto, com uma atividade energética de valor incalculável, prestes a ceder a sua forma singular e criar o palco de todos os acontecimentos alguma vez registados pela humanidade, o Universo. Primeiro, numa escala temporal que a nível humano seria uma eternidade, as nuvens de Hidrogénio – o elemento primitivo – arrefeceram e colapsaram formando as primeiras estrelas e galáxias. Uma vez formados estes elementos, começou a formação de todos os objetos celestiais que conhecemos hoje, numa combinação caótica de explosões, fusões, fissões e tantos outros “ões”.

Algures nesta linha temporal profundamente caótica e entrópica, surge a Via Láctea e posteriormente o nosso sistema solar, que se estima ter 4571 milhões de anos. É neste que se cria, aquele que é, modéstia à parte, o melhor planeta de todo o Universo. Um planeta com capacidades excecionais para criar vida, que assim que teve condições para tal, hospedou os primeiros organismos unicelulares e que rapidamente evoluíram para organismos pluricelulares desenvolvendo novas espécies.

No que à nossa espécie toca, estima-se que os nossos antepassados tenham surgido há 5 milhões de anos quando alguma espécie de macaco começou a andar em duas pernas. Só 2 milhões de anos depois começaram a fabricar ferramentas de pedra e a vaguear pelo mundo. Vagueavam não só em busca de melhores condições de comida, mas também pelo que se acredita ser o sentido primitivo de curiosidade e descoberta que nos acompanha até hoje.

Esta curiosidade pode ser a nossa maior arma de sobrevivência. Foi com esta curiosidade que conseguimos globalizar a espécie e será certamente com ela que abriremos novos horizontes além Terra. E por isso a pergunta, para onde vamos?

Nascemos demasiado tarde para explorar a Terra e demasiado cedo para explorar a Galáxia, mas é em nós que reside o espírito percursor do próximo milénio, é na nossa presença que decidiremos os objetivos da humanidade a longo prazo. Somos nós que devemos manter o interesse pelo espaço e pela sua exploração vivo e de boa saúde.

Depois das missões Apollo e dos vários acidentes que foram acontecendo, o interesse espacial foi decrescendo e aquilo que parecia óbvio e fácil de alcançar há 50 anos, deixou de o ser. A opinião pública mudou o seu rumo e perdeu os objetivos de grandiosidade, fazendo com que se abandonassem projetos já em pré desenvolvimento de bases lunares ou viagens a Marte.

Felizmente, esse espírito de exploração tem sido revitalizado com as variadas iniciativas privadas que têm surgido no âmbito da exploração espacial, com nomes bem sonantes no desenvolvimento do futuro. De momento podemos esperar vários desenvolvimentos de veículos destinados ao transporte de humanos no espaço, fabricados pelas: SpaceX, Virgin Galactics, Blue Origin e Rocket Lab. A NASA está também empenhada na missão Artemis que levará a primeira mulher à Lua já em 2024, se tudo correr nos prazos definidos. Podemos esperar também a criação de uma base lunar que irá servir de suporte para missões futuras a Marte. Elon Musk tem também as suas previsões um tanto ou quanto otimistas de pôr humanos em Marte por volta de 2035.

Uma coisa é certa: o interesse pelo espaço está de novo a ser aceso e devemos mantê-lo assim por várias razões. A primeira e mais óbvia de todas, já foi acima mencionada. Faz parte da nossa natureza, somos naturalmente seres vagueadores, e a Terra já não chega para responder a todas as perguntas que formulamos sobre a existência. A exploração espacial cria desafios que se respondem com novas tecnologias e teorias cientificas que acabam inevitavelmente por melhorar a vida do ser humano comum na Terra, são exemplos disso muitos dos instrumentos médicos que tiveram as suas origens teóricas realizadas por organizações como a NASA. A terceira pode-se revelar um pouco mais mórbida, mas prende-se com o facto da vida na Terra não ser de todo uma constante, são inúmeras as extinções em massa que o nosso planeta já sofreu, e por isso, enquanto espécie devemo-nos proteger de tal eventualidade. Ao dividir a espécie por dois objetos celestiais diferentes conseguiremos ter uma maior probabilidade de sobreviver.

Mas de que maneira podemos nós esperar colonizar um outro planeta? Os planos são variadíssimos neste momento, já que ninguém parece ter bem noção da grandiosidade do problema. A única constante neste momento, é saber que dificilmente encontraremos algum planeta com as condições iguais a este que temos hoje. Para propósitos deste artigo, analisaremos apenas a possibilidade mais viável de momento, Marte.

Marte é o quarto planeta a contar do Sol, é também um planeta rochoso tal como a Terra. Tem cerca de 15% do seu volume e 71% da sua densidade, fazendo com que tenha apenas cerca de 38% da gravidade terrestre. Um dia na sua superfície dura apenas mais 41 minutos do que na Terra e um ano completa-se em 687 dias terrestres. Parece já ter tido um passado parecido com aquele que é o presente da Terra, fazendo com que cientificamente, seja o mais interessante de explorar dado o facto de já ter existido água na sua superfície.

No que toca à sua exploração e colonização, Marte não parece muito amigável, muito por conta da sua atmosfera quase inexistente. Esta faz com que quase todos os tipos de radiação solar cheguem à sua superfície, influenciando também, de sobre maneira, a temperatura, fazendo com que esta varie, no planeta vermelho, de -140ºC a 30ºC, e atribuindo-lhe uma média de uns calorosos -63ºC.

Os desafios para os primeiros humanos a pisar o planeta passarão inevitavelmente por estas duas vertentes climatéricas e também pelo modo de sustento que se adotará. Para já, conseguimos cultivar no espaço microculturas, mas nada que se possa sequer assimilar a um sustento de uma tripulação de 8 a 10 pessoas. Um aspeto importante a considerar é o de que as explorações a Marte durarão obrigatoriamente 2 ou mais anos, dada a sincronia da sua órbita com a Terra, que apenas possibilita o “transfer” a cada dois anos terrestres entre os dois planetas. Fazendo com que seja obrigatório uma autossuficiência e independência da Terra como nunca se experienciou em qualquer outra missão espacial.

Dada as durações obrigatórias das missões, será necessário desenvolver um modelo habitacional sustentável por médio/longo prazo no planeta vermelho. E para já, aquela que parece a opção mais viável é aquilo a que gosto de chamar uma ironia do destino: viver em cavernas. Devido às radiações intensas que se sentirão na superfície de Marte, aquela que parece ser a opção mais funcional e barata, seria contruir uma base, debaixo de terra num dos antigos tubos de lava já encontrados no planeta. Não deixa de ser irónico, que para se começar de novo, num outro planeta, tenhamos que usar os mesmos métodos que os nossos antepassados usavam para sobreviver no nosso.

O último fator, que me parece igualmente importante a ter em conta, seria a viagem de regresso. É necessário contar com uma nave espacial absolutamente infalível e que seja capaz de aterrar e levantar voo de maneira completamente independente, tal como um avião o faz. Para além desta independência, é necessário conseguir produzir o combustível necessário para o regresso, na superfície de Marte, porque de outra forma não será uma viagem sustentável.

Para já, todos estes problemas parecem afastar a possibilidade de uma colonização nos próximos 100/200 anos, mas todas estas problemáticas são diariamente alvo de estudo e de tentativas de resolução por parte da comunidade cientifica global, que faz o que pode com os fundos que consegue obter. Todos estes cientistas, engenheiros e matemáticos carregam diariamente aquele que pensam ser o futuro da humanidade, nas suas pastas, computadores e papers. Mas acima de tudo, aquilo que parece ser o motor da inovação e evolução é a vontade pública de fazer algo acontecer e, é aí que devemos todos intervir, na vontade de mudar e no orgulho de sonhar grande.

Não podemos deixar que nasça mais uma geração sem aspirações de ver a humanidade prosperar no Universo. Está connosco o poder de decisão de uma espécie e a possibilidade de começar uma jornada de respostas a perguntas seculares.

Para onde vamos? Não sei, mas tenho a certeza que iremos para algum lugar entre as estrelas.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Voltar ao Topo