Uma Abordagem Sistémica às Alterações Climáticas

Uma Abordagem Sistémica às Alterações Climáticas


O presente texto tem como objetivo efetuar uma abordagem sistémica às alterações climáticas. Torna-se então imprescindível rever alguns conceitos.

Quando, em ciência, se fala de sistema, referimo-nos a uma porção do universo sobre a qual detemos a nossa atenção. Assim, mediante o objeto de estudo nesse sistema teremos de o caracterizar com maior ou menor pormenor. De acordo com o que nos propusemos refletir, começamos por clarificar que o sistema sobre o qual nos vamos debruçar é o planeta Terra.

Numa primeira abordagem de um qualquer sistema é normal discutir-se sobre as trocas que realiza ou não com o resto do universo ao seu redor, vizinhança.

Perguntar-se-ão como conseguimos separar o nosso planeta do resto do universo. Como é obvio não temos um separador físico, como uma fronteira, estruturalmente definido, todavia essa separação existe. Assim, quanto à matéria podemos considerar o nosso sistema fechado, pois a não ser em condições excecionais, o planeta não dá nem recebe matéria da sua vizinhança, já que a interação gravítica (força atrativa entre massas) que a Terra estabelece com as partículas não deixa que estas abandonem o planeta (em sentido figurado, estamos perante um confinamento obrigatório, sem quaisquer paredes). Porém, quanto à energia o nosso sistema não pode evoluir de fechado para isolado pois recebe e emite para o espaço radiação visível, luz (que nos permite ver à vista desarmada ou com telescópios óticos os objetos celestes e que permite que o nosso planeta seja visto do espaço), e invisível (ondas rádio, micro-ondas, infravermelhos, ultravioletas, etc.).

Com certeza estão a questionar-se, que tem tudo isto a ver com as alterações climáticas? É que nesta nossa abordagem vamos considerar o nosso sistema como se fosse um reator químico, um grande reator químico, do qual não conseguimos saber  tudo o que acontece em cada instante, nem é relevante, mas do qual a informação à escala macroscópica que nos é acessível,  como quantidades de matéria, pressão, temperatura, volume, nos permite prever como irá evoluir.

Importa assim introduzir um novo conceito, o conceito de equilíbrio químico – quando pensamos numa reação química, com certeza imaginamos todos, pensamos, em substâncias diferentes que misturadas irão reagir e originar novas substâncias, todavia poucos são os processos em que a totalidade das substâncias em reação, reagentes, vão originar as novas substâncias, produtos de reação, deixando de existir por completo. Assim, teremos simultaneamente reagentes e produtos de reação. “Sossegadinhos”? Não. A consumirem-se e a formarem-se à mesma velocidade, por isso parece-nos que não acontece nada mas o reator está a funcionar, em equilíbrio, e tem a capacidade de reagir sempre que o perturbamos, isto é, realizamos uma ação  que o desequilibra e ele, naturalmente, ajusta o processo reativo e a sua composição para voltar de novo ao estado de equilíbrio. 

O nosso planeta, tal como o conhecemos, tem mantido um conjunto de regularidades ao longo dos anos, pelo que contamos com determinado perfil climático ao longo de um ano e em cada uma das estações do ano. Diríamos então que o sistema se encontrava em equilíbrio. Porém, ano após ano temos vindo a assistir nos meios de comunicação a notícias de ocorrência de fenómenos climatéricos extremos com maior frequência. Mostram os dados científicos que a ação do homem, ou ação antropogénica, tem vindo a dificultar a manutenção do equilíbrio, por exemplo:

  1. Passámos, nas mais diversas atividades que desenvolvemos enquanto espécie, a produzir mais dióxido de carbono, CO2, do que aquele que o planeta (essencialmente plantas terrestres e aquáticas) tem capacidade para absorver e mais temos vindo a destruir a mancha verde do planeta;
  2. O dióxido de carbono não absorvido, assim como outros gases resultantes de práticas associadas à forma como vivemos hoje, metano (CH4), óxido nitroso(N2O), os mais significativos, não podendo abandonar a atmosfera pelas razões atrás referidas e não sendo reintegrados pelo planeta, vão impedi-lo de enviar para o espaço radiação por reflexão e por emissão, particularmente radiação infravermelha (uma forma de transferir energia enquanto calor).

Assim, com o foco nestes exemplos, nós não só desestabilizamos o equilíbrio do planeta a diversos níveis como boicotamos os mecanismos naturais que este possui para voltar ao seu estado de equilíbrio, tal como o conhecemos e gostaríamos que permanecesse. O nosso sistema tem-se mostrado muito resiliente, porém vão surgindo problemas ao nível da gestão quer de recursos quer de resíduos, que para mantermos a forma como vivemos, se é que mantê-la é possível, pela forma como a população tem vindo a crescer, o desafio para a Humanidade não é pequeno.

Contudo há um fator ao qual nenhum equilíbrio químico consegue resistir, a variação de temperatura do sistema.

De acordo com os cientistas que se debruçam sobre esta temática a temperatura média da terra tem vindo a aumentar sendo que quando esse aumento for maior ou igual a 1,5º C relativamente à da era pré-industrial, a qual terá terminado em meados do século XIX, atualmente é de cerca de 0,85 º C, a alteração do equilíbrio que conhecemos tornar-se-á irreversível (repare-se que em cerca de 170 anos ultrapassámos metade da variação limite).

E o que quer isto dizer? Quer dizer que, como defendem os que consideram que essa “coisa” das alterações climáticas não interessa nada, a Terra voltará a um estado de equilíbrio. Eu escrevi voltará a um estado de equilíbrio, e não, voltará ao estado de equilíbrio, àquele, ao de sempre, aquele em que nos desenvolvemos como espécie, que tem sofrido alterações suportáveis para nós mas que não foram suportáveis para inúmeras espécies já extintas ao longo do último século.

Assim, a evidência é de que os fenómenos extremos a cada ressurgimento são causa de maior devastação e morte no planeta. A questão que fica é se seremos nós e os demais seres vivos capazes de suportar o novo equilíbrio ou, como alguns defendem, um desequilíbrio permanente.      

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